Lapinha x Tabuleiro – Travessia encantadora

Estava esperando passar minha TPV (tensão pós-viagem) para depois relatar aqui uma das experiências mais marcantes que vivenciei. Ahhh, só para esclarecer, a TPV ocorre com aqueles que desejam que suas viagens de fins de semana e feriados se estendam para os demais dias.

Há algum tempo eu desejei e idealizei essa travessia pelo fato de saber que desafiaria meu físico e também que me proporcionaria um período longe da correria da cidade e dos afazeres do cotidiano.

Assim sendo organizamos tudo com um mês de antecedência e corremos para que tudo saísse conforme o planejamento.

Sábado 08/02

Saímos de Uberlândia (Hélder, Jhonne, Jainne, Cássia e eu) por volta das 23:00 e chegamos em Belo Horizonte às 06:00 onde nos encontramos com Guilia e Hélio e logo depois com Rafael e Nayara. Então partimos cheios de expectativas para mais uma aventura.

Logo de início quero ressaltar que essa viagem foi planejada em conjunto com essas pessoas maravilhosas que já considero minha família do mato. Tenho absoluta certeza que as aventuras não seriam as mesmas sem eles.

Domingo 09/02

Percorremos cerca de 140 km de BH até Lapinha da Serra. Ao chegarmos, o grupo decidiu que seria mais viável deixar os carros no povoado e contratar outros dois veículos para que nos transportassem na terça feira de Tabuleiro (fim da travessia) de volta à Lapinha da Serra.

É comum esse tipo de serviço por ali, o preço também é “tabelado” e não dá nem para chorar um descontinho. Acertamos o valor de 600$ por dois carros e o valor pago por cada trilheiro foi de 66,66$.

A ideia inicial era dos rapazes irem com os dois carros até o povoado de Tabuleiro e deixarem um por lá para que retornássemos ao fim da travessia, mas isso nos consumiria umas 6 horas e atrasaria consideravelmente nossa aventura.

Há também a opção de ir de ônibus de BH à Santana do Riacho (que fica antes da Lapinha da Serra) pela empresa Saritur (0xx 31 3272-8525 – www.saritur.com.br) e depois seguir de lá de carona ou em um ônibus escolar que saí de lá por volta do meio-dia. A empresa Saritur disponibiliza dois horários diários, mas para tal é preciso reservar um tempinho a mais, pois gasta se em média 3h e 30m fazendo o percurso de ônibus.

A travessia

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Turma pronta para o desafio.

Partimos da Lapinha da Serra, que estava cheia de turistas, por volta das 13:00hrs. O céu estava com poucas nuvens, o vento tocava bem de leve o rosto e o coração ansiava por viver na prática o que a mente tantas vezes desenhou.

Meu primeiro desafio foi lidar com o peso da mochila. Apesar de ter selecionado muito bem o que levar a mochila ainda pesava 12 kg.

Levei apenas três trocas de roupa de trilha, um short, duas regatas, anorak, itens de higiene pessoal, toalha de aventura (que comprei por 29,90$), protetor solar, repelente e comida.

Como saímos de Uberlândia em um grupo de cinco pessoas tentamos dividir a comida em partes iguais, mas mesmo assim ficou pesado e decidimos que para a próxima aventura reduziremos a quantidade de comida.

Aos poucos o corpo foi se acostumando com o peso e os olhos se encantado com o que via.

Nesse primeiro dia caminhamos pouco mais de 8 km e os cinco primeiros foram cruciais. A trilha é íngreme e cheia de percursos com “escalaminhadas”, mas não seria de todo difícil sem o peso da mochila.

Durante o planejamento da viagem decidimos comprar bastões de caminhada e confesso que foi uma excelente decisão. Pagamos cerca de 42$  por cada bastão da NTK e durante o percurso tivemos a certeza que esse foi um ótimo investimento. Adquirimos também, dessa mesma marca, um jogo de panelas que vem com quatro pratos, quatro canecas e dois porta temperos. São três panelas de alumínio leve e design bem apropriado para serem transportadas em caminhadas longas. Pagamos 150$ pelo conjunto e dá para cozinhar tranquilamente para cinco pessoas.

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Paisagens de encantar os olhos e a alma.

De acordo com que a caminhada evoluía e o corpo se acostumava com o peso da mochila, comecei a apreciar a paisagem e refletir sobre o real motivo de eu estar ali.

Para os que ainda não tiveram uma experiência pessoal e marcante com a natureza pode parecer estranho que um grupo de pessoas tenha escolhido percorrer 44Km de trilha em dois dias e meio em pleno feriado de carnaval. Mas os que amam certamente compreendem a grandeza de uma escolha assim.

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Corpo cansado e mente totalmente livre.


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Pausa para  um breve descanso.

Após a primeira parada para o descanso escolhi o jargão que me acompanharia por todo o percurso: corpo cansado e mente totalmente livre.

Percebia que à medida que o cansaço chegava, eu me distanciava das inquietações que vivem me espreitando, e minha mente cada vez mais alcançava a tranquilidade (que insisto em dizer) que só o mato pode me dar.

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Em frente, sempre em frente. (minhas amoras)

Quando se faz trilha em grupo é primordial que cada um respeite o ritmo e as limitações do outro. A sintonia do grupo era tamanha que em momento algum houve necessidade dessas palavras serem ditas, cada um caminhava à sua própria maneira e descobria aos poucos a melhor velocidade para os próximos passos.

Após caminharmos pouco mais de 8 km resolvemos acampar numa prainha que fica à 2,5 km da casa da Dona Ana Benta que serve como ponto de apoio. Lá é oferecido banho quente, jantar e café da manhã por um valor de 40$, mas preferimos montar acampamento na prainha, tomar banho no riacho e fazer nossa própria comida.

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Prainha <3

Como levamos um fogãozinho à gás ficou fácil fazer um espaguete com azeite, alho e atum. Acho que agora ficou bem esclarecido o motivo do peso das mochilas (Rsrsrs).

Após nosso humilde jantar, pude apreciar um céu estrelado como nunca havia visto antes. Que espetáculo maravilhoso!!! Exatamente como a Giulia descreveu: “Céu de purpurina”.

Não foi difícil pegar no sono após uma noite toda em viagem e um dia de caminhada intensa. Dormi tranquilamente e com a certeza de que a manhã seguinte me traria muitas surpresas.

Quando estou em casa tenho certa dificuldade em acordar cedo, mas quando estou no mato essa dificuldade desaparece. Gosto de me levantar cedinho para ver o sol nascer. Ahhhh, e como vale a pena!!!

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Nascer do sol simplesmente divino.

Depois de um cafezinho quentinho e barriga cheia era hora de desmontar as barracas e seguir viagem.

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Parceria aqui é mato

 

O clima matinal estava fresco, bem agradável e também havia muitas nuvens no céu. Devido a todos esses fatores a caminhada rendeu bastante.

Prosseguimos em ritmo bem pessoal e fomos parando ao longo do caminho para apreciar os deslumbrantes cenários que se formavam à nossa frente.

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Foram muitos momentos de troca de experiências, risadas gostosas e também aqueles instantes onde cada um ficava sozinho consigo mesmo. Entendo isso como uma mistura de sensações e sentimentos que vão desde a explosão da mais genuína alegria até a profunda introspecção. São momentos únicos e maravilhosos de se viver!

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Recarregando as energias.

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Casa do Seu Zé.

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Eu poderia tranquilamente fixar residência por aqui.

A primeira parte desse percurso de 6 km foi tranquila, o terreno se revezava entre plano e íngreme, mas os 2 km finais foram um pouco tensos devido tanta descida. Havia bastantes pedras soltas na trilha o que exigiu cautela redobrada devido o risco de escorregões e torções.

Eu vivo me surpreendendo com a diversidade de sentimentos que brotam em mim quando estou totalmente envolvida com a natureza. E desta vez não foi diferente. Quanto mais meu corpo se cansava mais a minha alma cantarolava e dançava, minha mente pesava menos que uma pluma de dente-de-leão e meu coração transbordava alegria por compreender a raridade daquele momento.

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A mistura de cores e  a iluminação natural me encantam.

Chegamos ao Mirante da cachoeira do Tabuleiro e tivemos o privilégio de contemplar sua beleza e grandeza de perfil. Quanta lindeza, minha gente! Mas vê-la de lado não era o suficiente queríamos aprecia-la por todos os ângulos, sendo assim partimos rumo à parte alta que é cheia de piscinas naturais bem apropriadas para banho.

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Me sinto pequenina diante de tanta grandeza.

E lá se vão mais umas boas pernadas.

Assim que chegamos fomos informados por um fiscal que precisaríamos nos retirar do local por volta das 17:00. Então nos apressamos para aproveitar o máximo possível. E assim foi o percurso: sobe pedra, desce pedra, atravessa pequenas corredeiras, escorrega daqui, levanta de lá e por fim conseguimos chegar bem próximo à queda d’água e sentir na pele como somos pequenos diante da imensa grandeza da natureza.

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Lugar bacana demais para se refrescar.


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A vista que se tem nesse ponto é incrível.

Como tenho mania de querer enxergar tudo por todos os ângulos, deitei na pedra quente e deixei meus olhos se embriagarem com aquela beleza singular.

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Lindezas que moram no meu coração.

Só para constar, a cachoeira de Tabuleiro tem 300 metros de altura sendo que 273 são de queda livre. É também a mais alta de Minas Gerais e a terceira no ranking nacional. Nem preciso mencionar o tamanho da minha satisfação, que a essa altura já ultrapassava as nuvens. Rsrsr

Curtimos o quanto deu e partimos renovados para o caminho de volta.

O que tenho para dizer sobre esse percurso é que toda aquela descida da ida agora seria uma subida bem íngreme na volta. Então imagina…

Como somos pessoas abençoadas, durante a subida havia nuvens que delicadamente bailavam no céu nos protegendo do sol, um vento suave nos refrescava e isso aliviou bastante  as agruras da subida.

Fomos tranquilos e absortos pela paisagem que parecia ainda mais encantadora com o entardecer.

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Não é exagero algum dizer que as nuvens dançavam.

Percorremos 22Km de trilha nesse segundo dia.

Chegamos ao acampamento pouco antes do sol se pôr totalmente e parte do grupo decidiu tomar banho quente na casa do seu Zé, a minoria se banhou no riacho e a outra parte tomou banho frio em um chuveiro que fica próximo a casa.

Pagamos 5$ pelo banho quente (a casa tem aquecedor solar) e ficamos esperando cerca de 01:00 hora na fila, pois haviam muitos trilheiros no ponto de apoio. Quanto ao banho gelado de chuveiro, não é cobrado taxa alguma.

Na casa do seu Zé também é oferecido um jantar típico no valor de 15$ e café da manhã por 10$. Dispensamos o jantar devido termos bastante comida, mas do café da manhã não abrimos mão.

Preparamos o jantar o mais rápido possível debaixo de um céu estrelado sem igual e logo depois nos entregamos ao sono que a essa altura já forçava a porta para entrar.

O café da manhã na casa do seu Zé é bem simples: pão sovado (pão de leite), queijo e café fresquinho. O diferencial é o café, que é produzido na propriedade mesmo (assim como o queijo) e torrado com uma pequena porção de cravo. Para mim foi totalmente novo, nunca havia tomado um café assim. O gosto é bem exótico, mas tomamos uma garrafa toda rapidamente.

Ahhhh, para quem deseja levar esse cafezinho para casa, seu Zé vende 1Kg por 25$.

Sobre o seu Zé e toda sua família: são pessoas humildes e amabilíssimas. Vale à pena passar por lá e tomar nem que seja um cafezinho.

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Mais um nascer do sol lindo de ver.

Após o café, desmontamos as barracas e partimos para reta final do nosso desafio: a parte frontal e o poço da Cachoeira do Tabuleiro.

Para o mirante onde se pode ver a Cachoeira de frente a trilha não é totalmente difícil, pois há bastante descida.

Nesse percurso não apenas minha alma cantava. Minha língua e meus lábios não resistiram e então formaram um coral.

O sentimento de gratidão transbordava a essa altura: gratidão pela vida, pela saúde, pelos amigos/irmãos que a vida me trouxe, por ser quem sou e pelo presente de estar naquele lugar. Incontestavelmente, sou abençoada!

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Apreciamos a bela vista do mirante e seguimos em direção a portaria do parque que dá acesso à parte baixa da cachoeira do Tabuleiro.

A portaria serve como ponto de apoio. Pagamos 10$ para visitar a parte baixa da Cachoeira. Nesse valor está incluído banho (que você vai desejar vorazmente na volta) e lugar para guardar as mochilas.

Sobre a descida para a parte baixa da Cachoeira.

É uma trilha de apenas 2km, mas pensa numa trilha “delicada”. Desci já imaginando a subida.

Como chegamos na entrada do parque por volta das 11:oo, decidimos almoçar quando chegássemos no poço, mas recomendo que antes de descer se alimente bem, pois a caminhada é bem puxada.

Meu metabolismo é bem acelerado então, sofri um pouco na descida devido ter adiado a “refeição” principal. O sol estava escaldante e a perda de energia foi visível.

Se eu desisti? Imagina!

Fui fazendo pequenas pausas e assim cheguei ao poço no meu próprio ritmo.

É de extrema importância que se tenha sempre à disposição água para beber, pois quando o sol está a pino facilmente se desidrata devido ao esforço físico.

O que alivia o cansaço são as imagens que vão se alternando. São vistas incríveis de uma única cachoeira que se impõe majestosamente à sua frente e te convida (atrai) a chegar cada vez mais perto.

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Chegandoooo

Quando cheguei ao poço, tratei de comer a farofinha nutritiva e prática que fiz para todos os almoços durante a travessia.

Tão logo estava cheia de energia e apta para mergulhar naquela água cor de Coca-Cola e deliciosamente gelada.

Lá no poço há bombeiros salva-vidas que ficam sempre a postos em épocas de feriados e também devido o fluxo de pessoas ser maior, mas em dias “comuns” é você e você. Então vale ressaltar que os cuidados devem ser redobrados para risco de câimbras (por causa da temperatura da água) e também com tromba d’água em caso de chuva.

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Depois de muito aproveitar retornamos à entrada do parque para o merecido banho de chuveiro e aguardar nosso transporte até Lapinha da serra, de onde seguiríamos para BH e logo depois para Uberlândia.

A “subidinha” não foi fácil, mas asseguro que cada gota de suor e cada restinho de força trazido lá do âmago da alma, vale à pena.

Foi uma experiência incrível, singular, transformadora e libertadora!

Chegamos à entrada do parque, tomamos nosso merecido banho e partimos em direção à vida comum que nos aguardava cheia de compromissos e afazeres obrigatórios.

Mas o que importa nossa vida comum? Estávamos cheios de combustível para seguir em frente até nossa próxima aventura.

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Os dois carros que alugamos nos pegaram na entrada do parque e nos levaram até a Lapinha da Serra. Os motoristas foram dois “Chicos” com quem trocamos experiências sobre a vida e as travessias que fazemos ao longo dela aqui nessa terra.

Informações importantes

*Custo da viagem – 350,00 por pessoa (alimentação, combustível, entrada no parque e gastos pessoais).

*Recomendo preparação física (para quem não prática nenhum tipo de esporte), pois as trilhas vão de nível moderado à difícil e a maioria do percurso é feito com a mochila nas costas.

*Leve apenas o essencial. Quanto mais leve for a mochila, melhor será seu desempenho.

*Escolha um calçado confortável, a caminha é longa e dependendo do calçado pode ser árdua.

*Tome muitaaaa água e opte por alimentos nutritivos e de fácil digestão (castanhas, paçoca, frutas desidratadas, barra de cereais, bolachas salgadas, pão integral…).

*Protetor solar e repelente são obrigatórios.

*Se possível leve Clorin (Pastilha purificadora de água), pois o reabastecimento de água é feito em riachos.

**Vá com o coração aberto, pois será uma das melhores experiências de sua vida!**

Considerações finais

Sem sombra de dúvida, foi uma das experiências mais incríveis que tive. Tanto pelo lugar, o desafio, a superação e mais ainda pelas pessoas incríveis com quem compartilhei essa experiência.

Agora transmito essa vivência através de palavras na intenção de te inspirar a se abrir para novas possibilidades e ir ao encontro de suas próprias experiências.

Escolha ser intenso em tudo o que fizer e verá quão gratificante é viver a vida com propósito.

Abraços e até a próxima aventura!

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Três mosqueteiras, ops, trilheiras.

Apaixonado por viagens e aventuras, idealizador do projeto 360go.

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